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Notcias

02/07/2018 - Com taxa de reciclagem de 98%, latinhas deveriam ter imposto menor do que outras embalagens, diz presidente da Abralatas

Em crescimento, indústria consome 24% da produção brasileira de alumínio



A produção de latinhas no Brasil tem números impressionantes: são 25 bilhões de unidades produzidas anualmente, com cada brasileiro consumindo, em média, 117 latas a cada 12 meses. Fortemente ligado ao mercado de bebidas, em especial ao da cerveja, o setor usa em torno de 24% do alumínio produzido no País, ao mesmo tempo que tem quase 98% de suas embalagens recicladas.

Em entrevista ao site do GBrasil, o presidente-executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas), Renault de Freitas Castro, falou sobre a solidez da indústria, em crescimento pelo segundo ano consecutivo, além de ressaltar a luta da entidade para que embalagens mais sustentáveis sejam menos tributadas em relação àquelas que poluem mais.

O Brasil é o terceiro maior produtor de latinhas no mundo, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Como o País se tornou um dos líderes do setor?

O que faz o Brasil ter esse peso na produção mundial é o mercado de bebidas, que é muito grande. O que a indústria de latas faz é atender à demanda, principalmente da indústria de cervejas – de refrigerantes também, mas em menor proporção. Envasamos em lata cerca de 40% a 50% da cerveja produzida no Brasil.

Qual o peso do setor na economia nacional?

Apesar de não termos números oficiais, a estimativa é que o faturamento do setor gire em torno de R$ 10 bilhões por ano. A indústria brasileira de latas, que tem 24 fábricas, também consome aproximadamente 24% do alumínio produzido no País e gera 3,4 mil empregos diretos. Além disso, a atividade de coleta e revenda de latas movimenta uma enorme quantia de dinheiro por toda a cadeia produtiva, inclusive para os catadores. Nós temos cerca de 800 mil pessoas que trabalham recolhendo material reciclável no Brasil, que possuem na lata a sua principal fonte de renda, porque essa é a embalagem de maior preço [de revenda]. Na etapa de coleta, que exclui a reciclagem, são injetados na economia R$ 950 milhões por ano. Se esse faturamento fosse de uma única empresa, ela estaria entre as 600 maiores do Brasil.

Que porcentagem da produção brasileira de latinhas é reciclada?

Dos 25 bilhões de latinhas produzidas, 97,7% são recicladas, segundo o levantamento mais recente, de 2016. Esse índice nunca cai abaixo disso, flutua há mais ou menos 15 anos em torno desse valor. Ela tem um aproveitamento que pode ser considerado integral. Tecnicamente, é difícil passar desses quase 98%, porque há usos que não são contabilizados, como fundições caseiras, artesanato e uma parte pequena que pode se perder e não chegar ao reciclador. Podemos dizer que estamos, virtualmente, com o total da produção sendo reciclado.

Para outros materiais, a dificuldade é muito maior para se fazer a logística reversa, ou seja, o processo de levar a embalagem novamente à indústria para que ela seja reciclada, após o consumo e o descarte no lixo. Temos uma capacidade de recolhimento que nenhuma indústria tem, com 30 postos de coleta dos recicladores. São grandes depósitos que recebem essas latas de cooperativas, sucateiros e até catadores autônomos, que têm um lugar seguro onde vão conseguir vender a lata a preços de mercado. Nenhuma outra embalagem tem uma rede tão grande de compra espalhada pelo País, os demais produtos têm de percorrer um longo caminho até chegar no reciclador. No caso do vidro, por exemplo, a maioria do resíduo é enterrada em lixões e aterros. A mesma coisa, um pouco menos, ocorre com o PET.  Você vê isso nas ruas, nos rios, nos mares. O plástico é o maior poluidor de águas do mundo. A lata não tem esse problema.

Ao reciclar uma tonelada de latinhas de alumínio, evita-se a extração de cerca de 4 toneladas de bauxita. Isso é um fator de proteção ambiental. Além disso, a economia de energia elétrica é de 95% em relação ao que seria necessário para a produção de uma tonelada de alumínio com base na matéria-prima virgem. Quando a indústria recicla o alumínio em vez de produzi-lo, a emissões dos gases que causam o efeito estufa também são reduzidas em 95%.

A reciclagem da lata também não requer muita água, usa aproximadamente um terço do que é necessário para reutilizar o vidro, que tem que ser muito bem lavado. O alumínio já vem num estado de pureza elevado, por causa da fundição.

Além da sustentabilidade, há outras vantagens da lata de alumínio em relação a outros tipos de embalagens?

É uma embalagem que não quebra e tem uma capacidade de armazenamento muito superior às demais, porque possui um encaixe perfeito entre a tampa de uma lata e o fundo de outra, então, o empilhamento é preciso e implica uma redução do espaço necessário em depósitos ou na geladeira. Também há a questão da inviolabilidade: uma garrafa PET ou até de vidro pode ter a tampa retirada e colocada novamente no lugar, sem aparentar violação. No caso da lata, isso é impossível. Outra vantagem é a exposição ao oxigênio e à luz, que são cem por cento vedados pela lata. Também gela mais rápido e é mais leve se comparar a uma embalagem com o  mesmo volume.

Em 2017, a indústria de latas de alumínio registrou um crescimento de 4,9% nas vendas em relação a 2016. Esse bom resultado deve continuar em 2018, mesmo com o cenário eleitoral indefinido, a expectativa de crescimento do produto interno bruto (PIB) revisada para baixo e o aparente fim dos cortes do atual governo na Selic?

Nós estimamos quase o mesmo crescimento para este ano, algo entre 5% e 6%, ou seja, devemos manter o nível alcançado no ano passado. Apesar dessa patinada do PIB, nós achamos que aquela redução que houve em 2016 está sendo recuperada, por isso existe esse espaço para mantermos o crescimento.

Então é um setor que mesmo em um período difícil continua bem sólido, pujante...

Sim, é verdade. A sazonalidade do setor obedece a uma queda no inverno e um aumento no verão. Essa é a curva de demanda e produção. Neste ano, a queda que normalmente é observada no inverno será amenizada pela Copa. Como você disse, o setor tem uma certa pujança e, usando a palavra da moda, uma resiliência a crises. O mercado de cerveja, embora tenha queda e elevações, flutua em um nível que pode ser historicamente chamado de “estável”.

Nestes 15 anos de existência, como a Abralatas ajudou o setor a se desenvolver? Quais reivindicações importantes da associação ainda não foram atendidas?

O que nós temos como a nossa principal bandeira, e que ainda não foi realizada, é a tributação que se aplica aos materiais de uma forma geral, principalmente no caso de embalagens. A lata de alumínio, sendo reciclada em 98%, tem a mesma tributação de Pis/Cofins e IPI que o PET, reciclado em pouco mais de 50%, e que uma embalagem de vidro, reciclada em 30%. Nós defendemos o seguinte: que os produtos tenham incluso no seu preço e na sua tributação o custo ambiental que trazem. Quem polui mais deve ser mais tributado.

Temos um manifesto circulando entre empresas e instituições, pedindo assinaturas para apoiar essa bandeira, que será entregue no Congresso, com um pedido de instalação de uma comissão para debater esse mecanismo, chamado de “tributação verde”. Não é uma bandeira só para a lata ou só para a embalagens, mas uma bandeira defendida no mundo inteiro, por várias instituições, entre elas a Organização das Nações Unidas (ONU). O impacto ambiental é um custo para a sociedade que não está embutido no preço dos produtos, e só os impostos conseguem fazer essa equalização. Lutamos fortemente para que isso seja reconhecido pela política tributária brasileira.

* Esta entrevista foi realizada com a colaboração da Agenda Contábil, membro do GBrasil em Brasilia-DF.

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