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14/06/2019

Para Marcelo Lombardo, da Omie, raízes do êxito das empresas do Vale do Silício estão além da inovação

Fundador da scale-up brasileira de sistemas de gestão em nuvem para PMEs, que recebeu mais de R$ 100 milhões em aportes de venture capital nos últimos 10 meses, aponta o modelo de negócio como diferencial para o sucesso das empresas do Silicon Valley

A audiência na sala de eventos de um hotel de Florianópolis é relativamente pequena, em torno de 100 pessoas, mas o empreendedor Marcelo Lombardo, CEO da Omie, deixa claro que está falando direto com seu público-alvo – empresários de contabilidade de praticamente todos os Estados da federação. O seu negócio, uma start-up que acaba de migrar para o time de scale-ups, tem um interesse enorme nos contadores – não como clientes diretos, mas como parceiros e avalistas cruciais de seu produto junto a um mercado gigantesco de pequenas e médias empresas brasileiras. Um mercado, segundo ele, abandonado pelas grandes desenvolvedoras de sistemas ERP – nicho, aliás, do qual já fez parte, fornecendo sistemas para companhias como ArcelorMittal, IRB e Ajinomoto. Mas o objetivo ali, no último dia de maio, é compartilhar a experiência de crescimento da Omie na pegada dos unicórnios do Vale do Silício e jogar luz sobre um modelo que, segundo Lombardo, "felizmente pode ser copiado em qualquer lugar do mundo".   

O produto da Omie é hoje uma grande plataforma de gestão na nuvem para as PMEs que reúne, em um único lugar, sistema de gestão (ERP, CRM), educação empreendedora e, mais recentemente, serviços financeiros. Seu grande diferencial é entregar um serviço sofisticado, completo e com alto potencial integrador, dotado de recursos até então inatingíveis para a maior parte dos pequenos empresários brasileiros. O mercado tem descoberto a plataforma como um braço direito para as PMEs atingirem a profissionalização e automação do seu negócio, e um acelerador do serviço contábil, eliminando etapas e processos nas rotinas fiscal e financeira. Por esse motivo, os contadores vêm se tornando os principais evangelizadores da ferramenta.    

Alessandra Ribeiro, do Grupo Fatos (GBrasil | São José dos Campos-SP), comenta com entusiasmo sobre a plataforma Omie. "É uma ferramenta completa, com vertentes para comércio, indústria e serviços. É também de fácil operação. Implantamos o sistema em nossos clientes em apenas 5 horas, incluindo a importação de cadastro de clientes, fornecedores e plano de categoria para geração de relatórios. Com essas demonstrações, o cliente pode visualizar os resultados de sua empresa com muito mais facilidade. A nossa meta é implantar o sistema Omie em todos os clientes que não tenham seu próprio ERP". 

O alto índice de aprovação do produto pelos clientes tem a ver também com a filosofia da Omie de fomentar o crescimento dos pequenos empresários, seja com recursos de mentoria e aprendizagem empreendedora ou com oferta de serviços financeiros. Essa fórmula permitiu a ela, em 5 anos de existência, somar 23 mil clientes, salta de 7 para 700 colaboradores e construir uma sólida rede de distribuição na América Latina por meio de 120 franquias. Se contabilizarmos as notas fiscais emitidas pelos seus clientes nos últimos 12 meses, elas somarão perto de R$ 66 bilhões/ano, o equivalente a 0,8% do PIB nacional. 

Esse crescimento exponencial foi rastreado por uma pesquisa da Delloite feita entre 2015 e 2018. Ela classificou a Omie em terceiro lugar no ranking das 100 pequenas e médias empresas nacionais que apresentaram as mais altas taxas de expansão, considerando a receita líquida. Os últimos 10 meses também não estão sendo nada ruins para a jovem empresa. Ela recebeu, em setembro, um aporte de R$ 25 milhões do fundo brasileiro de venture capital Astella e, agora, em abril, mais R$ 80 milhões da Riverwood Capital – o mesmo fundo de private equity que apostou na 99 (antiga 99Taxis). O destino do dinheiro é a expansão e a estruturação das revendas, sempre com viés de atendimento regionalizado.   

Dando um nó na cabeça   

Lombardo narra sua maratona com muitos momentos de euforia e de decepção, desde 2013, quando fundou a Omie. Neste período, começou a seguir a trilha de ouro do Vale do Silício, onde estão atualmente 10 das 17 das maiores empresas mundiais de tecnologia, com valor superior a US$ 100 bilhões. "É impressionante o que ocorre naquela região. Não existe paralelo no planeta de tamanha distorção. Se pegarmos as 150 empresas mais valiosas do Silicon Valley, elas equivalem a 50% do total de capitalização da Nasdaq. Uma área tão pequena, com 0,05% da população mundial, é responsável por 5% do valor de capitalização do mundo", compara.    

Esse tremendo êxito tem algumas hipóteses do mercado: ser um local de bases militares americanas, tradicionalmente desenvolvedoras de grandes tecnologias; a região da Califórnia sempre ter sido berço de inovação e, também, convergir muitas mentes notáveis, capital e grandes universidades. "Na verdade, tudo isso pode existir em qualquer lugar do mundo", analisa Lombardo. A justificativa ideal para o sucesso das empresas do Vale do Silício, segundo o CEO da Omie, seria o mindset, a forma de construir e desenvolver o negócio.   

"O modelo de crescimento é muito diferente do que fomos educados, em que se investe um pouco, se lucra, se reinveste e assim por diante, até que em 30 anos, com sorte e sem levar pancada de disrupção, você atinge alto volume de produção mas muitas vezes com um baixo rendimento. Ali no Vale, uma boa ideia dá um salto direto para o alto volume, mesmo apresentando prejuízo. Os fundos de investimento compram o 'futuro' e oferecem gasolina para você chegar lá, mesmo com baixos resultados. A ordem é: ganhe mercado e em 2 ou 3 anos vocês pivota o negócio para a lucratividade".    

É dessa forma que as start-ups crescem e, mesmo em prejuízo, fazem sua estreia na Nasdaq. "O valor da ação, no IPO, não é calculado pelo Ebtida, mas por um múltiplo da receita anual projetada", explica Lombardo. Mas quando esse futuro não se concretiza e a inovação não ganha público consumidor, a base de conhecimento gerada por ela também torna-se um ativo que é absorvido pelo mercado e transformado em rendimento para os investidores. "Esse modelo é tão legal que até quando ele dá errado, também não é ruim", brinca o empreendedor.   

Outra justificativa do sucesso no Vale do Silício, segundo Lombardo, é a preferência por modelos disruptivos, que quebram totalmente os paradigmas do mercado. "O mindset deles é abraçar a disrupção, sem medo, conscientes de que ela vem em ondas". Ele destaca que a tomada de decisões das empresas inovadoras também é pautada por KPIs bem diferentes. "Em vez de dados como Ebtida, faturamento, margem líquida, etc., eles olham para indicadores como CAC – custo de aquisição do cliente, margem bruta, paybackchurn e LTV". Para as empresas já sedimentadas que querem abraçar a inovação e não ser eliminadas pelas ondas disruptivas, o fundador e CEO da Omie dá um conselho: aderir a modelos ambidestros de gestão, como o da IBM. "Numa arquitetura ambidestra, a empresa consegue fazer o gerenciamento de seu negócio atual e, em paralelo, conduzir projetos de inovação".